Ao Leitor/Caminhante:
o Texto abaixo é de autoria de Janine Milward ₢2004.
Se você quiser copiar ou encaminhar, faça sempre na íntegra
e sempre mencionando sua autoria e seus direitos reservados.
Obrigada e Namaskar,
eu saúdo você com minha mente e com meu coração.
Janine Milward
O Capítulo 4 do Livro do Caminho e da Virtude, que eu transcrevo abaixo (a partir da belíssima e confiável tradução de Wu Jyh Cherng) e tento interpretá-lo, encerra em si mesmo, de forma absolutamente simples e em poucas palavras, todo o conjunto de conceitos sobre o Tao e o Te, o Caminho e a Virtude, e consequentemente, todo o percurso a ser realizado pela Criação – fundamentalmente pelo homem (por ser aquele que interpreta a própria criação bem como a re-cria), a partir do desenvolvimento de sua mente a tornar-se consciência infinita e iluminada bem como sua posterior realização alquímica e espiritual de sua vida a tornar-se vida infinita e iluminada – o Caminho da Iluminação e o Caminho da Liberação ou Imortalidade.
O Caminho é o Vazio
E seu uso jamais o esgota
É imensuravelmente profundo e amplo,
como a raiz dos dez mil seres
Cegando o corte
Desatando o nó
Harmonizando-se à luz
Igualando-se à poeira
Límpido como a existência eterna
não sei de quem sou filho
Venho de antes do Rei Celeste (3)
Tao é o Caminho.
Na primeira estrofe, Lao Tsé nos elucida melhor sobre o Tao, o Caminho, ao nomeá-lo de Vazio.
O Caminho é o Vazio
Sendo o Tao o Caminho, sua realização acontece através do ato do Caminhante Caminhar seu Caminho rumo ao seu Tao. Esse Caminho pode ser chamado de Vazio, de entrar no Vazio. É somente através do Vazio Absoluto que o Caminhante consegue Caminhar seu Caminho e alcançar seu Tao.
Lao Tsé continua:
e seu uso jamais o esgota
O uso desse Vazio jamais o esgota porque o Tao é inesgotável ou mesmo além da possibilidade de ser esgotável ou inesgotável – desde que é o Tao anterior à própria Criação do Nada, do Tudo e do Todo, anterior até ao próprio Vazio, que é o que mais próximo se lhe assemelha.
E Lao Tsé, ainda querendo dizer mais sobre o Vazio, continua:
É imensuravelmente profundo e amplo,
como a raiz dos dez mil seres
Os "dez mil seres" simbolizam a Criação e a raiz dessa Criação é oriunda do Vazio – que "é imensuravelmente profundo e amplo". Novamente, nesses versos, nos é dito que o Vazio é imensurável, ratificando o fato de seu uso jamais o esgotar.
Assim, quando o Caminhante se coloca em seu Caminho rumo ao seu Tao – e o encontra – torna-se o Homem Sagrado, aquele que se fusiona com a raiz da Criação e a imensurabilidade e o inesgotamento do Vazio que é a nomeação mais próxima do Tao, do Caminho.
Na segunda estrofe, Lao Tsé nos fala sobre o Te, A Virtude.
Cegando o corte
Desatando o nó
Harmonizando-se à luz
Igualando-se à poeira
A Virtude é a maneira pela qual o Caminhante deve Caminhar seu Caminho rumo ao seu Tao, O Caminho.. Apenas que a Virtude pode ser nomeada, identificada, através da ação, dos gestos, das palavras, de nossa condução em nosso Caminho.
Dessa forma, Lao Tsé nos diz para acalmarmos nossa mente e buscarmos a expansão da consciência a fim de a tornamos iluminada e infinita – esse é o Caminho da Iluminação, exemplificado através dos versos:
Cegando o corte
Desatando o nó
Alcançando o Homem Sagrado ou Caminhante o Tao da Iluminação – o patamar da consciência iluminada e infinita -, é preciso então que se dedique (em sua Alquimia do Caldeirão de seu corpo físico e de seu corpo espiritual ou corpo de luz) a se harmonizar com sua Luz.... e para tanto, entrando no Vazio. Por isso, Lao Tsé nos diz:
Harmonizando-se à luz
Igualando-se à poeira
Na terceira estrofe, Lao Tsé nos revela como nos harmonizarmos com a Luz do Tao e entrarmos no Vazio: a consciência de que somos nós mesmos o Tao e assim sendo, é preciso que ao Tao retornemos, nos fusionemos. Esta é a Alquimia do Caldeirão, ou seja, o Caminhante torna-se Homem Sagrado a partir do Tao da Iluminação e trabalha seu corpo físico já com a plenitude e infinitude de sua consciência iluminada, e transforma, transmuta, esse corpo físico em Corpo de Luz, alcançando então, o Tao da Imortalidade ou Liberação – vida e consciência iluminadas e infinitas.
Límpido como a existência eterna
não sei de quem sou filho
Venho de antes do Rei Celeste
Ao tornar-se Homem Sagrado, Lao Tsé pôde nos contar sobre o Mistério dos Mistérios, ou seja, que o Tao é anterior à própria Criação – é a existência eterna. O Tao é impessoal e Absoluto. Dessa forma, o Homem Sagrado, ao se fusionar ao Tao, descobre sua impessoalidade e infinitude:
Límpido como a existência eterna
não sei de quem sou filho
Fundamentalmente, mais que se descobrir anterior à própria Criação, o Homem Sagrado descobre que ele mesmo, fusionado ao Tao, ao Caminho, é anterior ao próprio suposto Criador, que Lao Tsé neste Capítulo, nomeia de Rei Celeste.
Não sei de quem sou filho
Venho de antes do Rei Celeste
"Rei" é a Consciência iluminada e celestial, a Suprema Consciência, Deus-Onipotente, O Criador que com sua Consciência cria a Criação, espelho de sua Consciência Suprema. Sendo assim, o Homem Sagrado é aquele que alcança, se fusiona com a Consciência Suprema, com o Rei Celeste, e finalmente diante do Vazio do Tao, compreende o Tao além de qualquer compreensão, além de qualquer palavra, além do além. Porque sobre o Tao não se fala, apenas nos deixamos preencher pelo Tao.
Dessa maneira, o Homem Sagrado, dentro da infinitude e impessoalidade do Tao, compreende que "Não sei de quem sou filho, Venho de antes do Rei Celeste". Essa é a Iluminação. Esse é o Caminho. E "O Caminho é o Vazio".
...
O Tao Te Ching, o Tratado do Caminho e da Virtude, é uma obra extremamente concisa e que, no entanto, "é imensuravelmente profunda e ampla, como a raiz dos dez mil seres". A meu ver, o Capítulo 4 é um dos que mais expressa o Tao e o Te, o Caminho e a Virtude em sua concisão e em sua amplitude. E seus primeiro e último versos expressam a estrutura fundamental da apreensão do Tao diante de todas as outras apreensões espirituais e religiosas que conheço:
O Caminho é o Vazio
...
Venho de antes do Rei Celeste
O Vazio e o Mundo da Não-Manifestação
O Mundo da Manifestação e a Criação
Janine Milward
Lao Tsé, ao tentar nos elucidar sobre o Tao, o Caminho, nomeia-o de Vazio – querendo significar que sobre o Tao, o Caminho, não se fala, não se tem como falar... No entanto, o Mestre deixa claro que este Vazio está eternamente pleno de toda a Criação.
E nos revela as formas simples – o Te, a Virtude - que podem ser usadas por esta mesma Criação – nós, os seres que usam suas mentes – para alcançar este Vazio.
Alcançar este Vazio, o Tao, o Caminho, significa, então, compreendermos que nos tornamos tão límpidos e puros quanto este Vazio (nomeado agora por Lao Tsé de existência eterna) ao mesmo tempo que nos retira qualquer identificação ou filiação... não sei de quem sou filho. E mais: significa compreendermos que o Tao, o Caminho, o Vazio, está muito além da Criação, quando Lao Tsé nos esclarece que fazemos parte de algo, o Tao, o Vazio, o Caminho, que é o Criador do criador... (que Lao Tsé denomina de Rei Celeste).
Sendo assim, parece-me que restam-nos a compreensão de que, por um lado, existe algo que podemos chamar de Tao, o Caminho, o Vazio – mesmo que nada mais possamos falar sobre isso... e, por outro lado, existe algo que podemos chamar de Criação e que a esta Criação pertencemos... Mesmo que esta Criação acabe, em última instância, compreendendo que é anterior ao seu Criador e mais ainda, que o próprio Criador advém do Tao, o Caminho, o Vazio – sobre o qual não se fala (porque não se tem como falar).
Poderíamos, então, pensar em dois mundos que abarcassem não somente o Vazio e a Criação como também a própria dicotomia do fato da Criação ser ainda anterior ao próprio Criador... Assim, nascem o Mundo da Não-Manifestação e o Mundo da Manifestação.
O Mundo da Não-Manifestação pode ser compreendido também como uma manifestação do Tao, do Caminho, do Vazio. Porque sobre o Mundo da Não-Manifestação também não se fala, apenas se pressente... Certamente, podemos nos referir a ele como sutil, de existência eterna, o berço de todos os berços, o Princípio Primordial de onde tudo parte e para onde tudo retorna.
E mais: ao começo de tudo e ao final de tudo, compreendemos que apenas existe – se é que podemos usar o verbo existir – o Mundo da Não-Manifestação... mesmo que o Tao, o Caminho, o Vazio, ainda esteja para além do Mundo da Manifestação...
O Mundo da Manifestação é certamente também uma manifestação do Tao, o Caminho, o Vazio... porém sobre este Mundo podemos falar e podemos nos referir a ele como sutil, como materializado, com sutil novamente, num ciclo incessante, sempre mutante, sendo sua existência manifestada em multiplicidade de existências duradouras, sempre em constante mutação em seus ciclos.... é a Criação.
......
Lao Tsé, o Mestre do Tao, em seu Capítulo 1 do Tao Te Ching, O Livro do Caminho e da Virtude, continua a nos revelar sobre a impossibilidade de se nomear ou falar sobre o Tao e nos elucida sobre o Mundo da Não-Manifestação e o Mundo da Manifestação:
O Caminho que pode ser expresso não é o Caminho constante
O nome que pode ser enunciado não é o Nome constante
Sem-Nome é o princípio do céu e da terra
Com-Nome é a mãe das dez mil coisas (4)
Primeiramente, Lao Tsé nos afirma e reafirma todo o tempo que não existe linguagem possível que possa alcançar a verdadeira essência do Tao, ou seja, o verdadeiro Tao está além de qualquer linguagem, bem como além de qualquer possibilidade de manifestação tanto do consciente quanto do inconsciente. Nada pode denominar correta e certeiramente o que é o Tao.
Sendo o Tao a única possível constância do Todo e do Tudo, a única possível realidade que é imutável, Lao Tsé a Ele se refere como impossível de se referenciar. Quando algo semelhante ao Tao é referenciado, já não é o Tao verdadeiro, é apenas algo que se pode referenciar como Tao, como O Caminho.
O Caminho que pode ser expresso não é o Caminho constante
O nome que pode ser enunciado não é o Nome constante
Não podendo ser referenciado de nenhuma forma, do Tao parte o princípio criador e formador de todas as coisas. Esse princípio, primordialmente, ainda é a não-vida, a não-existência, a não-forma, a não-realidade - que dá berço à vida, à existência, à forma, à realidade. Esse é o Wu Chi, o Mundo da Não-Manifestação, onde o Tudo e o Todo - o céu e a terra - são gestados ainda dentro do Ventre do Tao.
Sem-Nome é o princípio do céu e da terra
Sem-Nome, então, é o Wu Chi, O Mundo da Não-Manifestação que dá criação ao Tudo e ao Todo, o Mundo da Manifestação, Tai Chi.
O Mundo da Manifestação, Tai Chi, inclui o Tudo e o Todo advindos do Mundo da Não-Manifestação...
No entanto, o Tudo faz ainda parte da idéia de totalidade advinda do Tao do Mundo da Não-Manifestação. O Todo faz parte da idéia da totalidade advinda do Tao do Mundo da Manifestação. O Tudo ainda é indefinível enquanto o Todo já pode ser definido e identificado. Assim, O Todo adquire um nome.
Com-Nome é a mãe das dez mil coisas
Dessa maneira, na primeira estrofe do Capítulo 1 Lao Tsé nos apresenta o Tao e a total impossibilidade de se falar sobre Ele em sua essência. Quando alguma linguagem passa a se referir sobre o Tao, então, já não é mais o Tao essencial e sim, o Tao através de alguma forma ou linguagem. Também nessa primeira estrofe, Lao Tsé nos introduz à estrutura da formação do Tudo e do Todo do qual somos parte: o Wu Chi, O Mundo da Não-Manifestação, e o Tai Chi, O Mundo da Manifestação, - conceitos fundamentais e estruturais de compreensão da verdadeira natureza do céu e da terra.
Interioridade e Exterioridade
Janine Milward
Dentro do Mundo da Não-Manifestação existe apenas interioridade. O Tudo e o Todo e o Nada estão contidos dentro do Mundo da Não-Manifestação.
A Criação do Mundo da Manifestação advém da plenitude da interioridade do Mundo da Não-Manifestação. No entanto, sempre o Mundo da Não-Manifestação permanece absolutamente interiorizado.... porque toda a Criação está contida dentro dele, bem como o próprio Mundo da Manifestação.
Assim, o Mundo da Não-Manifestação possui apenas plena interiorização. Enquanto o Mundo da Manifestação, por estar contido dentro do Mundo da Não-Manifestação, possui exterioridade ao mesmo tempo que interioridade, certamente. E por possuir este duplo aspecto, está em constante estado de mutação: ora a Criação faz face à sua exteriorização, ora à sua interiorização.
Somente o Tao é plenamente interiorizado.
Constância, Duração, Não-Mutação e Eterna Mutação
Janine Milward
Além da plenitude da interiorização, dentro do Mundo da Não-Manifestação existe apenas constância, ou seja, apenas o Tao é verdadeiramente constante, imutável. A única não mutabilidade é o próprio Tao em sua constância.
Dentro do Mundo da Manifestação existe constante mutação. A única não mutabilidade é a própria eterna mutação. E a mutação pressupõe a duração, não a constância.
E certamente, também Lao Tsé nos aponta a lei única de interação entre os dois mundos: a eterna mutação e a constância.
No Capítulo 7 do Tao Te Ching, Lao Tsé nos fala mais claramente ainda sobre a constância e a duração:
O céu é constante, a terra é duradoura
O que permite a constância e a duração do céu e da terra
É o não criar para si
Por isso são constantes e duradouros (5)
Dentro do ato da Eterna Mutação do Mundo da Manifestação, existe a constância do céu e existe a duração da terra. E ambos fazem a eterna mutação acontecer através do fato de que ‘não criam para si’.
O Mundo da Não-Manifestação, em sua plenitude de interiorização e constância, é então espelhado pelo Mundo da Manifestação, em sua duração e exterioridade – mesmo que sempre cabendo dentro da interioridade absoluta do Mundo da Não-Manifestação. o Tudo, o Todo e o Nada: A Criação, cabem dentro do Mundo da Não-Manifestação e são realizados através do Mundo da Manifestação.
O Eterno Retorno
Janine Milward
O fio da existência é advindo do Mundo da Manifestação através da Luz e da Não-Luz, certamente. Porém, a existência é advinda da não-existência – o Mundo da Manifestação é o espelho do Mundo da Não-Manifestação.
Lao Tsé nos diz em seu Capítulo 40:
O retorno é o movimento do Caminho
A suavidade é a atuação do Caminho
Os seres sob o céu nascem da existência
E a existência nasce da não-existência (6)
O Mundo da Não-Manifestação é a própria não-mutação, ou seja, a única coisa que nunca entra em mutação é a própria não-mutação que somente existe no Mundo da Não-Manifestação e é exatamente aquilo que Lao Tsé nos diz que não se tem palavras para falar sobre, ou para se definir... É o Tao.
O Mundo da Não-Manifestação – Wu Chi -, no entanto, não possui qualquer dualidade, apenas a unidade, o Absoluto, Paramapurusa, Tao, Deus – o Tao da Criação.
E no Mundo da Não-Manifestação, em não havendo lugar para a dualidade – apenas para a Unidade absoluta – então, poderia nos trazer a idéia da Imortalidade, certamente. Dessa maneira, a palavra Imortalidade poderia ser sinônima de Unidade absoluta.
Apenas não podemos nos esquecer que o Tao está ainda além do Tudo, do Todo e do Nada....
Porém Lao Tsé nos diz que o próprio Tao, o Caminho, faz brotar sua semelhança dentro de si mesmo – em sua absoluta interiorização, constância e não-mutação realizadas pelo Mundo da Não-Manifestação – dando berço à Criação advinda Mundo da Manifestação, ou seja, o Caminho realiza uma movimentação.
A movimentação realizada pelo Caminho em seu espelhamento plenamente interiorizado é a própria Criação.
No entanto, essa Criação é apenas um espelho do Caminho e sendo assim, sempre a Ele retorna – por ser Seu absoluto pertencimento.
Chegamos, então, à conclusão de que o movimento do Caminho em seu retorno é o princípio primordial do conceito da mutação, ou seja, existe uma movimentação entre o Caminho e a Criação, entre o Mundo da Não-Manifestação e o Mundo da Manifestação.
A verdade é que essa movimentação dá berço ao Mundo da Manifestação. O Mundo da Manifestação existe a partir da mutação.
Sendo o Tao, o Caminho, absolutamente interiorizado, constante e não-mutável, a mutação constante e existente dentro do Mundo da Não-Manifestação, se expressa na Criação – em seu Eterno Retorno.
Assim, a Criação, antes de mais nada, é o espelhamento do Tao, o Caminho, e cabe dentro Dele – que possui apenas a plenitude da interiorização.
A Criação – nascendo dentro do útero do Tao, o Caminho – em seu processo de eterna mutação, vai apresentar a constância da realização da duração, ou seja, a Criação, em sua multiplicidade, vai sempre se metamorfoseando, transformando, mudando, transmutando em tempo e espaço e em seu Caminho de eterno retorno – realizando assim, o movimento do Caminho dentro do Mundo da Manifestação.
A Criação – em sua multiplicidade e coletividade – apresenta também sua exterioridade (na medida que toda a Criação cabe dentro do Mundo da Não-Manifestação advindo do Tao, o Caminho), bem como apresenta sua interioridade (na medida que é espelhamento do Tao, o Caminho, que é absolutamente interiorizado).
A Luz e a Não-Luz
Janine Milward
Sendo o Mundo da Não-Manifestação advindo do Tao, o Caminho, apenas espelhado ou manifestado pelo Mundo da Manifestação, surgem a Luz e a Não-Luz, o princípio criativo e a energia cósmica que realizam esta Criação.. ou espelhamento ou manifestação.
Aquilo que não pode ser nomeado, o Tao, o Caminho, o Vazio, finalmente é nomeado, manifestado, através de seu espelhamento realizado pela Luz e a Não-Luz.
A Luz e a Não-Luz seriam as definições mínimas da dualidade cabível na primordialidade da Criação, ou Mundo da Manifestação, ou Céu Posterior, ou Tai Chi (que nos revela o Sublime Yang e o Sublime Yin – a Luz e a Não-Luz).
Quando existe a interação entre a Luz e a Não-Luz, estaremos falando, então, da Criação e da mutação constante existente dentro dessa Criação, em ciclos de nascimento, vida e morte.
O Tao e a Criação do Céu e da Terra
Janine Milward
Janine Milward
O Tao nos conta que, dentre as várias lendas que remontam ao dilúvio – o final de um ciclo, o retorno ao princípio primordial, o movimento da Criação -, existe uma que narra a estória de um homem e uma mulher que deram início ao universo, como o conhecemos.
O dilúvio havia arrasado tudo, no céu e na terra. Não restara nada, a não ser o barro que surgia enquanto as águas iam escorrendo e desaparecendo, baixando, buscando os vales.
O homem e a mulher salvaram-se porque se refugiaram no cume da mais alta montanha. Eles eram tudo o que restou do Yang e do Yin, do Tai Chi, da multiplicidade de existências do universo anterior.
E todo aquele Vazio de existências era o Uno, o princípio inicial de tudo o que haveria de ser re-criado a partir de então.
O que poderia criar o universo manifestado?
- A inspiração soprada pelo Absoluto do universo não-manifestado.
O retorno é o movimento do Caminho
A suavidade é a atuação do Caminho
Os seres sob o céu nascem da existência
E a existência nasce da não-existência (6)
Do alto da montanha, o homem, que chamaremos de Criativo, e a mulher, que chamaremos de Receptivo, sentaram-se para primeiramente contemplarem o vir-a-ser, o início de um novo processo de criação.
Podemos dizer, sim, que esta estória se passa no Planeta Terra, nossa terra.
K’un, O Receptivo, o Abranger, O Vazio, A Não-Luz, tomou do barro, moldando com suas mãos ágeis as estrelas que foram colocadas no céu, uma a uma, tantas que nem deu para contar.................................................................................................................................................................................menos uma, que deixou na Terra, a seu lado.
Ch’ien, O Criativo, A Luz, permanecia sentado em seu silêncio interior, em profunda meditação, criando assim a constância da luz que permite a criação existir.
Dessa maneira, a cada estrela que surgia no céu, Ch’ien, O Criativo, criava nela A Luz que a fazia novamente resplandecer; e logo logo, toda a imensidão do universo brilhava com o pisca-pisca das estrelas...
K’un, A Terra, tornou-se a Abrangência do próprio Vazio - o Yin Supremo.
Ch’ien, O Céu, tornou-se o Criativo da Luz que preenche esse Vazio - o Yang Supremo..
Através do Vazio, encontra-se A Luz
Do barro que sobrou, K’un, A Terra, começou a fazer seus próprios filhos... E usou um pouquinho do barro daquela estrela que havia ficado na terra, que não fôra para o céu, para fazer o coração dos seres e de toda a natureza.
K’un, A Terra, quis dar a seus filhos o sentimento de poderem olhar para as estrelas e o resto da natureza do universo como se fizessem parte desse todo.... e fazem, de coração e mente.
Assim, em nosso coração, bate aquele minúsculo pedaço de barro – que é a nossa parte nas estrelas e no universo.
O que quero que me distinga dos demais
é valorizar o alimentar-se da Mãe (7)
Surgiram o Céu e a Terra e toda a criação....Do Mundo da Não-Manifestação ou Céu Anterior, Wu Chi, surge o Mundo da Manifestação ou Céu Posterior, Tai Chi.
Sem-Nome é o princípio do céu e da terra
Com-Nome é a mãe das dez mil coisas (4)
K’un, A Terra, identificava-se com a multiplicidade, a amplidão, o Espaço, o Vazio do Espaço. Ch’ien, O Céu, identificava-se com a unidade, a continuidade, o Tempo.
O Céu é constante, a terra é duradoura
O que permite a constância e a duração do céu e da terra
É o não criar para si
Por isso são constantes e duradouros (5)
Da Não-Luz e da Luz – dessa cópula do universo em seus primórdios – o Yin foi se mesclando ao Yang, o Yang foi se mesclando ao Yin....
A Luz constante de Ch’ien, O Céu, O Criativo, e a criação duradoura de K’un, A Terra, O Receptivo, surgem do Tao.
Tao é o Caminho.
A Criação advinda do Vazio
Janine Milward
Janine Milward
A interação entre o Mundo da Não-Manifestação e sua constância e interioridade e o Mundo da Manifestação e sua eterna mutação e exterioridade e interioridade dão berço aos conceitos do Sublime Yang e do Sublime Yin .
Sabemos que a imagem do Sublime Yang é uma linha reta querendo significar sua constância.
________
A imagem do Sublime Yin é uma linha vazada querendo significar sua multiplicidade e interação e mutação eternas – a duração.
___ ___
Também sabemos que o Sublime Yang representa a Luz que emana do Mundo da Não-Manifestação, o verdadeiro Criativo... Não é o Mundo da Não-Manifestação aquele dá berço ao Mundo da Manifestação?
Enquanto o Sublime Yin representa a Não-Luz que emana do Mundo da Manifestação, o Receptivo... Não é o Mundo da Manifestação o espelho que advém do Mundo da Não-Manifestação?
Dentro do Mundo da Manifestação, o Tao da Criação é pura Luz. Tudo é Luz. Tudo está contido dentro do Tao da Criação, que possui apenas interioridade e nenhuma exterioridade. Sendo assim, estamos falando do Sublime Yang.
Dentro do Mundo da Manifestação, a Criação, no entanto, possui tanto a interioridade quanto, e principalmente, a exterioridade (por estar totalmente contida dentro do Tao da Criação).
Para a Criação, portanto, existe a duplicidade da existência estruturada sobre o Sublime Yang e sobre o Sublime Yin, a Luz e a Não-Luz.
Dessa forma, podemos compreender que o Mundo da Manifestação não apenas é totalmente estruturado pelo Mundo da Não-Manifestação como também apresenta a Luz e a Não-Luz, o Sublime Yang e o Sublime Yin como sua possibilidade mínima de representação.
A partir da mesclagem entre a Luz e a Não-Luz , surge a Criação. E a Criação surge da plenitude do Vazio.
A Sagrada Tríplice Transparência:
O Princípio Primordial, o Tesouro do Espírito e o Mestre
Janine Milward
Janine Milward
Lao Tsé avança em sua conceituação sobre a fusão da Luz e da Não-Luz, a partir do Uno primordial, o Absoluto:
O Caminho gera o Um
O Um gera o dois
O dois gera o três
O três gera os dez mil seres (8)
O Tao gera o Um, o Princípio Primordial, O Sopro do Tao, a energia do Absoluto.
O Um – advindo do Absoluto – gera o Dois, o Tai Chi: O Yang, o claro, a Luz, e o Yin, o obscuro, a Não-Luz.
O Dois gera o Três: O Céu, A Terra e toda a natureza sintetizada no Homem.
O Céu revela o Princípio Primordial, a Terra revela o Tesouro do Espírito, A Sagrada Leitura; o Homem revela o Mestre, aquele que retorna ao Princípio Primordial através do Tesouro do Espírito.
O Princípio Primordial é o Tao: A Virtude, Te, é o Tesouro do Espírito. Assim, o Homem, o Mestre, é aquele que busca o Tao através de sua ação, a virtude, Te.
Dessa maneira, o Três gera os dez mil seres, o universo.
Constância e Duração:
Linha Contínua e Linha Vazada - Sublime Yang e Sublime Yin
Janine Milward
Os dez mil seres se cobrem com o obscuro e abraçam o claro.
E se harmonizam através do esplêndido sopro (8)
A constância de Ch’ien, O Céu, o Yang absoluto, é simbolizada pela linha contínua:
________
A duração de K’un, A Terra, o Yin absoluto, é simbolizada pela linha vazada
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A constância de Ch’ien, O Céu, revela a unidade, O Uno. A duração de K’un, A Terra, revela a multiplicidade, a partir da dualidade do Yin e do Yang.
Sendo o Céu, o Tao, o Princípio Primordial: sendo a Terra, o Te, o Tesouro do Espírito; sendo o Homem o Mestre que realiza em si mesmo o Tao e o Te....dentro de Ch’ien, O Pai, O Céu, A Luz, o Criativo, O Sublime Yang da Luz Suprema, encontraremos:
________ uma linha contínua para o Céu (contendo a revelação do Princípio Primordial, O Tao, em sua manifestação Yang)
________ uma linha contínua para o Homem (contendo a revelação do Mestre em sua
manifestação Yang)
________ uma linha contínua para a Terra (contendo a revelação do Tesouro do Espírito, O Conhecimento, O Te, A Virtude, em sua manifestação Yang)
Assim, surge a representação primordial do Céu, Ch’ien, O Criativo, o Sublime Yang da Luz Suprema:
A linha do Céu ________
A linha do Homem ________
A linha da Terra ________
Em K’un, A Mãe, A Terra, O Receptivo, O Vazio, O Abranger, O Devocional, O Sublime Yin da Não-Luz Suprema, encontraremos:
____ ____ uma linha para o Céu (contendo a revelação do Princípio Primordial, O Tao, em sua manifestação Yin)
____ ____ uma linha para o Homem (contendo a revelação do Mestre em sua manifestação Yin).
____ ____ uma linha para a Terra (contendo a revelação do Tesouro do Espírito, O Te, A Virtude, em sua manifestação Yin)
Surge, então, a representação primordial da Terra, K’un, O Receptivo, O Sublime Yin da Não-Luz Suprema:
A linha do Céu ____ ____
A linha do Homem ____ ____
A linha da Terra ____ ____
Nos Trigramas Primordiais imajados do Tao e do Te, o céu está acima e a terra está abaixo. O céu é constante e a terra é duradoura.
No entanto, ao tecer a Estrela de Seis Pontas, ou seja, a verdadeira realização da fusão entre Céu e Terra, essas imagens transmutam-se infinitamente, formando ora o simbolismo da Paz dentro da Criação, quando o Céu se coloca por sob a Terra:
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... ora o simbolismo da Estagnação dentro da Criação, quando a Terra se coloca sob o Céu:
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Essa constante movimentação é a base estrutural do Ciclo da Criação: do sutil ao denso; do denso ao sutil, em eterna mutação.
O retorno é o movimento do Caminho
A suavidade é a atuação do Caminho
Os seres sob o céu nascem da existência
E a existência nasce da não-existência (6)
com um abraço estrelado,
Janine Milward
com um abraço estrelado,
Janine Milward
Ao Leitor/Caminhante:
o Texto acima é de autoria de Janine Milward ₢2004.
Se você quiser copiar ou encaminhar, faça sempre na íntegra
e sempre mencionando sua autoria e seus direitos reservados.
Obrigada e Namaskar, eu saúdo você com minha mente e com meu coração.
o Texto acima é de autoria de Janine Milward ₢2004.
Se você quiser copiar ou encaminhar, faça sempre na íntegra
e sempre mencionando sua autoria e seus direitos reservados.
Obrigada e Namaskar, eu saúdo você com minha mente e com meu coração.
